quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Sanguinho no caminho
Comprei Loki? na segunda edição, em 1983. Antes do relançamento da Baratos Afins era um item de colecionador, raríssimo mesmo nos melhores sebos do ramo. E não era uma boa lembrança. O vendedor da loja em Campinas, 220 volts, disse que não queria ouvir de novo, com uma cara que só fui entender completamente muito tempo depois. Loki? é um daqueles discos insuportáveis, um soco no estômago, um excesso de sinceridade que deveria ser proibido pelo Ministério da Saúde. É um disco tarja preta, com sérios efeitos colaterais e completamente intenso. É o disco da separação, para ele dupla, da mulher e da banda, das duas coisas que mais amava e/ou dependia. Não tem nada a ver com Syd Barrett, delírios, psicodelia, blablablá. Se há uma droga que inspira esse disco, de A a Z, essa droga é o amor, a mais poderosa e letal já inventada e, ninguém nega, a mais inspiradora. Loki?, de 1974, é irmão gêmeo de Blood on the Tracks, 1975, de Bob Dylan, outro disco tarja preta. Ouvi essa bolacha envenedada quando saiu, e meus ouvidos eram hard rock para as sutilezas e angústias que ela trazia. O adolescente zeppeliano-purpleano-progressista não conseguia entender nada, passar da superfície. Primeiro, a barreira musical: não havia riffs de guitarra! Depois, o Himalaia: as letras. A música um dia, depois de muita insistência (o crítico da Pop dizia que o disco que era genial!), explodiu na minha cara e foi como uma iluminação, uma ponte para um novo mundo, a salvação, o que impediu que eu me tornasse um dos desses metaleiros velhos ridículos (como alguém com mais de 30 anos pode escutar Iron Maiden?). Mas o pico da montanha só galguei muito tempo depois, com muito esforço e dor. Ninguém merece, ou talvez esse seja o preço. Com Loki? também foi assim. É preciso experiência. Are you experienced? Está certo disso? Não quer ajuda dos psiquiatras? Dylan foi profissional com a dor e seguiu, sem parar, está correndo até hoje na sua endless tour fugindo dos caminhos ensangüentados. Você encontrar restos de Blood on the Tracks em vários discos posteriores, como se ele estivesse respondendo às perguntas, obsessivo, ele que cantou que nunca se acostumou com isso (a separação), apenas aprendeu a desligar a maquininha na cabeça, mas ainda sentia o "saca-rolhas no coração". Arnaldo foi pras cabeças, a ruptura. "Singin' Alone", de 1982, que o diga: "I fell in love onde day/To a lady so cold/She had all the magic serpents". E segue, na minha tradução livre, com "chutei o balde, me transformei num tolo e, como se alguém me puxasse, comecei a nadar nas minhas lágrimas". Alguém jogue um bote salva-vidas.
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Um comentário:
dois, por favor
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