terça-feira, 21 de outubro de 2008

As chagas de santo Arnaldo

No momento da fusão-conversão, santo Arnaldo caiu para a morte e renasceu. Foram anos antes de confusão, estado alterado, depressão. Seu irmão Sérgio ataca a "mídia", o que é típico, porque Sérgio é muito mais mundano, egocêntrico, arrogante, e joga a sua culpa na imprensa. Os políticos e donos da verdade adoram fazer isso, incapazes de reconhecer o instinto humano refletido nesses relatos. Os loucos e santos atraem a curiosidade porque ousam ir aonde sequer sonhamos. Santo Antão vendeu tudo que tinha, que não era pouco, e foi viver entre os demônios no deserto, a pão e água. É uma história extraordinária, com ou sem imprensa. Mas na minha experiência, desde ouvir no programa de rádio da madrugada de Carlinhos "Pop" Gouvea que Arnaldo havia pulado, só vi respeito dos jornalistas quando falavam dele. Respeito até excessivo, porque o assunto era quase um tabu, porque ele era reverenciado, mesmo quando era chamado de Syd Barrett brasileiro. Não há nada a se glorificar na destruição das drogas, mas de certa forma os dois foram santificados, e há neles aquela condição de renúncia, de deixar o mundo do sucesso, do reconhecimento, da vaidade das vaidades. Ficar sem dinheiro, morar com mãe no interior da Inglaterra ou num sítio em Minas. O importante é que Arnaldo emergiu como símbolo de vitória (Syd não conseguiu), de tudo que ele representa para pessoas que imaginaram uma utopia de paraíso aqui na terra, de toda a carga de missionário que queria "desbundar o maior número de pessoas possível". Em 1972, os Mutantes foram tocar em Mococa, no estádio do Radium Futebol Clube, do lado da casa dos meus pais. Eu tinha 10 anos e nenhuma noção do desbunde, exceto pelo disco Jovem Guarda do Roberto Carlos e os Beatles como Reis do Ieieiê na televisão. Lembro de pedir 10 cruzeiros para o meu pai e ir distraidamente para um encontro com o destino. Sentei na grama, não havia 100 pessoas lá, e vi aquelas figuras estranhas caminharem para o palco, o maior que já havia visto na minha vida. Depois, branco. Disseram que o som era ouvido a quilômetros de distância. Não me lembro de nada. Acordei depois, em algum lugar do futuro.

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