sábado, 20 de setembro de 2008

Criador de sombras

Quem quer criar sombras?
Afogas teus sonhos em desenganos
Publicamente explode teus desejos
E concordas com argumentos espúrios
Quem quer domar os ventos?
Esquecer dos grilhões do destino
E submeter-se às humilhações diárias
Esperando o pagamento nos dias cinco, dez, vinte
Criar sombras, domar os ventos
Embebedar-se de oceanos
Tragar os céus
Defecar galáxias
Peidar universos
Quem quer viver em bolhas de ar
Comprimir-se até o mínimo
E disputar o espaço impossível
Até que a vontade seja nula
E cabeças sejam plantadas em vasos
E o centímetro quadrado tenha um valor imensurável
Quem quer mastigar pedras?
Ater-se à lógica para explicar o instinto
Juntar contrários e dividir os iguais
Possuir terras legendárias nas fronteiras inatingíveis

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Praia Mar Hotel

Você não pensa e pensa que isso é bom
Eu penso muito e você diz que isso é ruim
É bobagem, mas eu tenho motivos para ser assim
Eu faço do meu pensamento uma espécie de trampolim
Eu me apoio nele, salto e mergulho em um abismo sem fim
Mas não pense que eu não sofro quando penso
Eu sofro, e penso mais para me livrar do sofrimento
Chego a ir tão fundo que quase me arrebento
Mas pior não é sofrer: pior é sofrer e não poder dizer
Porque não existem palavras que traduzam esse sentimento
Entretanto, penso
Penso até o dia em que eu possa dizer, inundado de bom senso:
Penso o que é bom; o que é ruim, dispenso.

São Luís do Maranhão, circa 1989