Será que podemos ser felizes?
Felizes para comemorar, beber, comer, falar todas as bobagens que existem entre o céu e a terra.
Felizes para esquecer as decepções sem medo, criar novos modelos de vida sobre o planeta Terra.
Mas não só. Felizes também para sermos tristes quando for preciso ser triste.
Felizes para chorar e se desesperar quando for impossível não chorar e se desesperar. Quando for preciso ser solidário na dor, solitário na dor, desesperado no desespero mais sórdido, na solidão mais infinita, na dor mais pungente, como Jonas na barriga da besta. E ainda assim sermos felizes e agradecer pela graça de estar vivo.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Tempo
Vou dar esse tempo. Vou correr esse risco. Vou remoer minhas culpas. Vou virar esse disco. Vou curtir minhas dores. Vou assar essa gordura. Vou moldar minha alma. Vou fabricar minha cura. Vou escapar pela tangente. Vou adiar minha morte. Vou enfrentar esse bicho. Vou encontrar o meu norte. Vou contar um segredo. Estou morto de medo.
Água
No meio da travessia
Perguntei o que estava fazendo ali
Sem fôlego
Num trânsito de braços e pernas
Perguntei o que estava fazendo ali
Sem fôlego
Num trânsito de braços e pernas
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Imaturo
Você tem que ser imaturo para ser jornalista e continuar sendo imaturo para continuar sendo jornalista.Muitos se arrependem no meio do caminho e lamentam não ter estudado. Tentam ser advogados, que também é uma raça maldita, porém tem suas moedas de troca. Como disse um jornalista gaúcho desiludido, o advogado pelo menos pode botar uma placa na porta de casa oferecendo seus préstimos. Porque jornalista não se encaixa, não tem serventia. É um tipo de animal que vive em bandos de sua espécie, reclamando de sua vida miserável e falando mal da dos outros. E os outros são médicos, administradores, dentistas, advogados. Têm o que trocar uns com os outros, favores que são pagos com favores e assim por diante. Jornalistas não têm nada a oferecer. Até professores têm algum conselho a dar sobre a educação dos filhos, o veterinário pode dar palpites sobre a saúde do cachorro. Jornalista não serve pra nada nessas relações sociais. Por isso vive em bandos, odiando-se e odiando uns aos outros. Jornalista, o idealista, é ser vago, fora do eixo, completamente inútil.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Espelho partido
Estou olhando para trás
E o espelho está quebrado
(Fechei o motoboy que se chama Xuxa)
Os objetos no retrovisor
Podem parecer mais perto
Do que realmente estão
E o espelho quebrado
Multiplica os objetos
Mais perto do que realmente estão
Estou olhando para trás
Porque não há nada adiante
E o espelho está quebrado
(Fechei o motoboy que se chama Xuxa)
Os objetos no retrovisor
Podem parecer mais perto
Do que realmente estão
E o espelho quebrado
Multiplica os objetos
Mais perto do que realmente estão
Estou olhando para trás
Porque não há nada adiante
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Fora do lugar
Tudo está fora do lugar
Mas que lugar?
O lugar onde ficavam as coisas
Coisas preciosas e frágeis
Que evaporaram
Não deixaram rastros, só luto
Ruínas de glórias distantes
Mas que lugar?
O lugar onde ficavam as coisas
Coisas preciosas e frágeis
Que evaporaram
Não deixaram rastros, só luto
Ruínas de glórias distantes
domingo, 11 de novembro de 2007
Circunscrito
Tenho me repetido
Ando em círculos
a procura de alguém
que não está
Em algum outro lugar
Devo estar sendo feliz
E a falta
dessa que se perdeu de mim
Me deixa partida
É por isso que ando
E às vezes corro
Só nunca sei se estou fugindo
Ou procurando por ela
Ando em círculos
a procura de alguém
que não está
Em algum outro lugar
Devo estar sendo feliz
E a falta
dessa que se perdeu de mim
Me deixa partida
É por isso que ando
E às vezes corro
Só nunca sei se estou fugindo
Ou procurando por ela
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Idos de outubro
Estou de bobeira. À beira do abismo. Antes e depois da ciência. Ciente. Olhando. A beira. A margem. A beira do rio. A Brian Eno.
Cá estamos nós
À beira deste rio
Você e eu
Sob um céu que parece não parar de cair
Não pára de cair
O dia passa
Como se num oceano
À espera
Sem nunca conseguir lembrar o motivo de estar aqui
Eu me pergunto: por que viemos?
Você fala comigo
Como se estivesse à distância
E eu respondo
Com vagas idéias recolhidas de um outro tempo
De um outro tempo
Cá estamos nós
À beira deste rio
Você e eu
Sob um céu que parece não parar de cair
Não pára de cair
O dia passa
Como se num oceano
À espera
Sem nunca conseguir lembrar o motivo de estar aqui
Eu me pergunto: por que viemos?
Você fala comigo
Como se estivesse à distância
E eu respondo
Com vagas idéias recolhidas de um outro tempo
De um outro tempo
domingo, 14 de outubro de 2007
Por que que a gente é assim?
No fundo eu sei que tudo que eu preciso é de uma nova dose. Qualquer coisa que me distraia, forte o suficiente para que eu esqueça que esse segundo vai passar e o próximo também. Para o bem e para o mal, vai passar. Para o bem e para o mal, o imponderável virá. E depois irá. Coisa estranha acordar todos os dias. Fingir que se está indo para algum lugar, que se está entendendo alguma coisa. Que há questões a resolver, metas a alcançar. Pra viver é preciso se distrair dos pensamentos. A vida é não pensar. Quem foi que disse isso mesmo?
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Coisas deste mundo I
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
Spleen de Paris
E aqui estamos. De volta. O eterno retorno. Ampulhetas malditas que não param de escoar. Paris, flaneur, primeiro mundo, alpes brancos, campos verdes, du vin, tartare, tudo para trás. O de novo batendo à porta. Me agarro nas cinzas mais escassas das esperanças. Quem sabe muda? Quem sabe eu mudo. Quem sabe, eu. Mudo. Sei lá. A culpa é do Spleen. Eu tenho mais recordações do que se tivesse mil anos...
(... uma cômoda imensa atulhada de planos
versos, cartas de amor, romances e escrituras
e grandes cachos de cabelo entre as faturas
guarda menos segredos que meu coração.
É uma pirâmide, um imenso porão
E não há túmulo que mais mortos possua
- eu sou um cemitério odiado pela lua,
onde, como remorsos, vermes atrevidos
andam sempre a incomodar meus mortos mais queridos ....)
(... uma cômoda imensa atulhada de planos
versos, cartas de amor, romances e escrituras
e grandes cachos de cabelo entre as faturas
guarda menos segredos que meu coração.
É uma pirâmide, um imenso porão
E não há túmulo que mais mortos possua
- eu sou um cemitério odiado pela lua,
onde, como remorsos, vermes atrevidos
andam sempre a incomodar meus mortos mais queridos ....)
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Jet Lag Blues
De volta, agora é a hora que o bicho pega. Sentar, organizar, separar. Get things done. Noite-dia.
I've got the jet lag blues, things are growing inside my brain
I've got the jet lag blues, things are growing inside my brain
If I don't feel any better soon, good lord, I'll surely go insane
I left China yesterday on a big American Airlines 767 Boeing airplane
I left China yesterday on a big American Airlines 767 Boeing airplane
The food was horrible and I felt like a chinese tuna in a chinese can
Uuhh, good Mencius, I believe my time ain't long
Yes, wise Meng Tzu, I believe my time ain't long
The days have turned into night and I'm lost in the twilight zone
I've got the jet lag blues, things are growing inside my brain
I've got the jet lag blues, things are growing inside my brain
If I don't feel any better soon, good lord, I'll surely go insane
I left China yesterday on a big American Airlines 767 Boeing airplane
I left China yesterday on a big American Airlines 767 Boeing airplane
The food was horrible and I felt like a chinese tuna in a chinese can
Uuhh, good Mencius, I believe my time ain't long
Yes, wise Meng Tzu, I believe my time ain't long
The days have turned into night and I'm lost in the twilight zone
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Revolution
Panico do outro lado do mundo. Trabalho de parto. Voo perdido, noite em Chicago, whotsup?, chuva, agonia, crossroads, outro voo, angustia, travessia, o que to fazendo aqui, agora estou aqui, de lado, de pe, de ponta-cabeca. E entao? Evento nada a ver, gente esquisita, marketing total, sou reconhecido pelos inimigos, ele nao e um dos nossos, meus deus, confucio, sou jornalista, lide, pauta, controversia, outro lado. Nao, ja estou no outro lado. Saio correndo, procurando noticia, olho os jornais, tudo acontecendo, caramba, foi ontem, e agora?, aonde eu vou?, que metro?, como se diz esse nome?, qual eh o telefone? Volto cansado, sem lide, sem norte, uma experiencia de quase morte jornalistica, os deuses da noticia me abandonaram, faz tempo que eu nao me sentia assim, me lembrei de voce, reconheci as dores, sera que vale a pena? sera que vale mais um cabelo branco? Sera que eh mais dificil pra mim, por que? Junto-me aos inimigos, alguns boa gente, da Tailandia, da Malasia, do Egito. Todos no onibus para o sightseeing, no lead in sight, so a patria do socialismo democratico, predios e mais predios gigantescos, viadutos, gente, gente, gente. Vamos passear, vamos ao jardim das pedras, vamos fazer compras. Lembro de voce quando vejo a camisa do camarada Mao ao lado do presidente Stalin. Che estava la tambem. Volto pro anibus, mais compras, agora eletronicas. Tanta loja me da vertigens, saio correndo. Compro pilhas na Best Buy, chinesas, nao duram. Onibus, jantar de gala, com shows e competicoes entre os participantes. Nunca via nada igual, constrangedor. Nada de lide. Fujo para o banheiro na hora em que teria que ir ao palco pegar a bolinha com o palito chines. O diretor de marketing agradece e diz que gracas a nos o emprego dele esta garantido. Ganhei o dia, mas nao achei o lide. Volto pro hotel, quero fugir, nao dormi nada nos ultimos dias, jet lag total, no relax, e continuo sem conseguir. Devia ter me preparado melhor, devia ter feito umas ligacoes, mandado uns e-mails, devia, devia. Durmo mal, suor, frio, febre? Lembro que comi uma gelatina feita de casca de tartaruga no jantar (descobri depois). O diretor de marketing disse que ela "apaga o fogo interior". Deve ser isso. Sonho com jornal, reuniao de pauta, sou importante, mas alguem botou uma aranha na minha cama. Acordo assustado, 6:30, breakfast, comida ocidental par compensar a overdose chinesa da noite anterior. Coisas esquisitas, moles. Vou a luta. A noticia me espera nas esquinas do mundo. Ligo pra bolsa de valores, nao consigo falar com o assessor, decido ir, pego o metro, a mesma linha 2 que eu ja havia pegado antes, ja conheco, estou ate aprendendo os nomes. Predio enorme, gigantesco, como tudo por aqui. O assessor vem me ver, no visit, tem que mandar fax. E-mail? Nao, fax. Tiro fotos da copia (por que nao?) do touro de Wall Street. Copia. A cidade copia Chicago, a bolsa segue o touro. Mais de 800 acoes. No visit, no lead. Vou embora, passo na banca, compro um Tio Patinhas. Outra banca, compro o China Business News e o Shanghai Securities News. Em chines. Mas eh jornal, papel, cheio de lides.
Volto pro metro e no caminho as dores do parto. Uma ideia, rarissima nos ultimos tempos, tenho que parar, banco da praca, escrevo umas mal-tracadas. Um lide? Talvez, eh muito cedo pra saber. Nasceu agora, ha o periodo de rejeicao pos-parto. Vai ter que crescer. Vencer a autocritica. Eh dolorido. Uma ideia. Agora os 90% restantes de suor, montes de inforamcoes jogadas na mala, pedacos de jornais, livros, anotacoes, coisas vistas e ouvidas. Sera que eh isso mesmo? Mas vou dizer isso de novo? Ja nao foi dito um milhao de vezes? Quantos livros foram escritos sobre a China, quantos artigos? De novo. Cada um, um novo. Tenho que me controlar, organizar, nao deixar escapar, filtrar, rejeitar, respeitar. Tenho que comecar outra vez.
Volto pro metro e no caminho as dores do parto. Uma ideia, rarissima nos ultimos tempos, tenho que parar, banco da praca, escrevo umas mal-tracadas. Um lide? Talvez, eh muito cedo pra saber. Nasceu agora, ha o periodo de rejeicao pos-parto. Vai ter que crescer. Vencer a autocritica. Eh dolorido. Uma ideia. Agora os 90% restantes de suor, montes de inforamcoes jogadas na mala, pedacos de jornais, livros, anotacoes, coisas vistas e ouvidas. Sera que eh isso mesmo? Mas vou dizer isso de novo? Ja nao foi dito um milhao de vezes? Quantos livros foram escritos sobre a China, quantos artigos? De novo. Cada um, um novo. Tenho que me controlar, organizar, nao deixar escapar, filtrar, rejeitar, respeitar. Tenho que comecar outra vez.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
Things Change
Jovens, ainda muito jovens para se angustiar. E no meio daquela conversa me lembrei que esse era meu sonho. O impresso, o diário. Me lembro que era um sonho impossível. Mas um belo dia, eu estava lá. A primeira vez que vi meu nome estampado parecia uma fantasia, uma felicidade inacreditável. Me pergunto em que parte do caminho foi que o sonho virou pesadelo. Esse de hoje.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Vaca amarela
A vaca amarela é uma vaca que veio da China. É uma vaca meio capenga, pengó, dolente. A vaca amarela não é um vacão, é uma vaca ocupada, não vacante, é uma vaca falante, meio pedante, pé-de-boi. Ela caiu no Rio Amarelo, aquele que ficou famoso nos anos 60 com o megassucesso Yellow River, it's in my mind, it's the place I love, e ficou conhecida como Yellow Cow. O historiador inglês Percy Meat escreveu uma obra referencial sobre as circunstâncias misteriosas da amarelização da vaca intitulada "The Yellow Cow Went to the River". Seguiu-se "The Yellow Cow Jumped the Window", que versava sobre as oportunidades perdidas e os ressentimentos guardados. Finalmente, completou a trilogia "The Yellow Cow Went to the Swamp", obra que inspirou Jimmy Cliff a escrever seu hipermegassusesso "Many Yellow Rivers to Cross". Se a vaca é amarela e a febre é amarela, atenção, há perigo na esquina. Quem vai ordenhar essa vaca, sua vaca, nossa vaca, vaca sagrada, desgraçada, puta safada, vacilante. Falou primeiro?
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
De rigeur
Venha, mon amour, contemplar as estruturas. Recuperar o espírito dos tempos olhando o mundo das alturas da Sabedoria e da Ciência, reservadas senhoras que a poucos dão o prazer de uma dança. E, quando o fazem, exigem toda a compostura e rigor. Pobre dançarino! A valsa é um desatino.
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Período de silêncio
Minha vingança será essa. Ficarei muda, catatônica. Não haverá lógica, cronograma ou dicionário. Quem quiser que leia o prospecto, breve resumo dos 430 meses. Mais informações não darei. Período de silêncio, sem comentários. E depois não digam que os fatores de risco não foram assinalados, que o prejuízo não foi declarado. Eu avisei. Leiam o prospecto
Intangíveis
Meu, esta tela em branco. É muita liberdade e muita responsabilidade neste universo paralelo-virtual. É o sonho de Kerouac, um rolo de papel interminável que aceita milhões de letras e bobagens. É literatura? É datilografia? Ah, mediocridade. Tempos, costumes, marca indelével: a partir de agora estamos sob zilhões de zóios e mecanismos de busca e mexericos cibernéticos. Para onde vamos?
terça-feira, 28 de agosto de 2007
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